Colegio Magister

Entrevista com Ana Mota


1) Conte um pouco sobre sua iniciação no esporte.

A minha história com o esporte começa bem antes de conhecer e praticar formalmente o basquete como esporte de competição. Tive uma infância muito divertida, livre, brinquei muito no quintal da minha casa onde havia muitas árvores, brinquedos que meu pai construía como gangorra, balanço, gira-gira e também na rua onde morava que era bem tranqüila e onde morava a grande maioria dos meus amigos, crianças de idades diversas mas próximas, meninos e meninas. Lembro-me que existiam temporadas de brincadeiras típicas como bolinha de gude, andar de carrinho de rolimã, de bicicleta, taco, esconde-esconde, duro-mole, pega-pega, queimada, jogos com bola, amarelinha, apostar corrida e tantas outras... Toda essa vivência de brincadeiras e jogos me permitiu desenvolver inúmeras habilidades com o corpo, com as mãos e com os pés, correr, saltar, lançar, agarrar, equilibrar, esquivar etc. de forma muito natural, isso contribui muito quando resolvi praticar algumas modalidades esportivas.

Estudei em uma escola pública onde não havia infra-estrutura nem material adequado para as aulas de Educação Física, e as atividades se resumiam a praticar ginásticas e a jogar queimada, por isso, meu primeiro contato com atividades esportivas ocorreu quando construíram um centro esportivo da Prefeitura de São Paulo perto da minha casa. Me inscrevi no atletismo, no vôlei e no basquete, modalidade que já havia me fisgado durante os Jogos Olímpicos de Moscou.


2) Você teve incentivo de alguém ou se inspirava em algum atleta da época?

A abertura dos Jogos Olímpicos de Moscou me emocionou muito e acompanhar a participação dos atletas brasileiros foi a primeira sementinha de um sonho que se tornou realidade anos mais tarde. A minha grande inspiração foi a Seleção Brasileira Masculina de Basquete, geração de Oscar, Marcel, Carioquinha, Marquinhos e Cia, pois ainda não conhecia a Seleção Feminina de Basquete que não se classificou para essa Olimpíada e suas grandes estrelas, Hortência e Paula. Acompanhava os jogos da Seleção Brasileira e admirava o jogo do Marcel, adorava ver as jogadas que ele fazia e, a cada cesta convertida, a cada bola recuperada, ver a sua comemoração com um tapinha na mão dos companheiros de equipe.
Nessa época, comecei a brincar no quintal de casa em uma cesta improvisada com o suporte de um vaso de flores da minha mãe preso ao tronco de um pé de manga que havia no quintal. Eu e mais um amigo e uma amiga brincávamos como se estivéssemos disputando uma Olimpíada representando o Brasil, jogando contra as seleções dos outros países. Criamos um jogo com algumas das regras que conseguimos aprender assistindo aos jogos pela TV e outras que inventamos. O jogo era mais ou menos assim, nós três representando o Brasil (eu era o Marcel, aliás, quando comecei a jogar profissionalmente, escolhi a camisa número 11 em homenagem à ele. Minha amiga era o Oscar e meu amigo o Carioquinha) contra uma seleção imaginária de algum outro país (de preferência EUA e URSS, grandes potências esportivas e econômicas), só podíamos tentar acertar a cesta através de arremessos de média ou longa distância, nunca através de arremessos do tipo bandeja e nem de perto. Só podíamos arremessar depois de trocar no mínimo três passes bonitos, que chamávamos de efeito (por trás do corpo, de costas, por entre as pernas, no ar). Quando acertávamos a cesta era ponto para o Brasil, quando errávamos era ponto para o outro país. Estipulávamos um número X de pontos e a equipe que atingisse esses pontos primeiro, vencia o jogo. Às vezes estipulávamos um tempo e usávamos um despertador para marcar o final da partida, que poderia terminar empatada e, quando isso acontecia, jogávamos mais um tempo de prorrogação. Confesso que, quando perdíamos um jogo, levávamos a disputa para melhor de 3 e acabávamos vencendo, rs...


3) Quais os clubes que jogou?
Centro Olímpico do Ibirapuera – São Paulo
Minercal – Sorocaba
Arisco – Sorocaba
Constecca – Sorocaba
Leite Moça – Sorocaba
Cesp-Unimep – Piracicaba
Nossa Caixa – Ponte-Preta – Campinas
Seara – Paulínia
Data-Control – Americana
Arcor – Santo André
AA Guaru - Guarulhos

4) Você imaginava que faria parte da Seleção Brasileira de Basquete Feminino?

Quando comecei a treinar no centro esportivo do bairro onde morava, meu maior desejo era realizar um jogo com alguma equipe de outro centro esportivo ou escola. Seis meses depois, após passar por uma seletiva, já estava treinando no Centro Olímpico do Ibirapuera e um ano mais tarde tive meu primeiro contato com a Seleção Brasileira Feminina de Basquete que estava disputando o Campeonato Mundial que aconteceu em São Paulo e treinava no Centro Olímpico. Fiquei mais apaixonada ainda pelo basquete vendo as jogadas perfeitas da Hortência e encantada com a leveza e a magia das jogadas da Paula, além da garra da Branca, da eficiência e dedicação da Vânia Teixeira, Marta e Cia. A partir daí, estabeleci o objetivo de vestir a camisa da Seleção Brasileira e representar o Brasil.


5) Como foi a experiência de sair de São Paulo e ir jogar no interior em uma equipe profissional?

Quando treinava no Centro Olímpico o técnico da equipe Minercal, de Sorocaba, me viu treinando e me convidou para ir jogar na sua equipe. Ele já havia sido técnico da Seleção Brasileira Feminina. Fiquei muito feliz com o convite, mas tinha 14 anos e teria de convencer os meus pais para poder ir morar em outra cidade, como não havia equipe profissional de basquete feminino aqui na capital, eles permitiram, mas deixaram bem claro que minha primeira obrigação era com os estudos e que só poderia continuar jogando se dedicasse à escola também.
Já nesta época, treinava e jogava com a equipe da minha categoria e também na equipe adulta. Dois anos mais tarde, eles contrataram a jogadora Hortência e outras grandes jogadoras e tive a oportunidade de aprender e evoluir muito mais e também conquistar os primeiros títulos importantes: Campeonato Paulista, Brasileiro, Jogos Abertos do Interior.


6) Qual a emoção que você sentiu ao ser convocada para a Seleção Brasileira?

Foi de muita alegria, pelo trabalho reconhecido, pelo esforço, dedicação e empenho recompensados, e por um objetivo alcançado.


7) Qual a fase mais marcante da sua carreira?

Eu considero todo o período em que joguei na cidade de Sorocaba, pois foi nessa época em que aconteceram minhas primeiras convocações para as seleções Paulista (infanto e juvenil) e Brasileira (juvenil e adulta) e também de conquista dos primeiros títulos importantes.


8) Além das inúmeras vitórias conquistadas na Seleção Brasileira, qual título mais te emocionou?

Foi o Panamericano em Cuba, pois foi o primeiro título internacional importante dessa geração. Foi uma conquista sobre 2 das 3 principais potências do basquete feminino mundial, EUA e Cuba. E ainda mais, na presença do presidente Fidel Castro, de quem tivemos a honra de receber a medalha de ouro.


9) Como foi jogar ao lado de grandes estrelas do basquete nacional como: Hortência, Paula, Janeth e outros talentos da época?

Num primeiro momento, principalmente quando você é muito jovem, jogar ao lado dos seus ídolos, com quem você conhecia apenas pela TV ou das arquibancadas, é sempre um desafio, existe a admiração, a emoção que precisam ser administradas, pois podem até atrapalhar o seu desempenho. Em relação à Hortência, tive a sorte e o privilégio de, dois anos após vê-la pela primeira vez, junto com a Seleção Brasileira no Centro Olímpico, estar jogando ao lado dela em Sorocaba e aprender muito, pois ela sempre foi muito exigente, perfeccionista.

Com a Paula, foi um pouco diferente, pois éramos adversárias nos clubes, eu em Sorocaba e ela em Piracicaba, mas eu tinha a incumbência de marcá-la sempre, o que era uma responsabilidade muito grande e me obrigava a me dedicar muito aos treinos e a conhecer muito bem o seu jogo, suas principais características, seus pontos fortes (que eram muitos) e também seus pontos fracos (que eram poucos). Quanto à Janeth, temos quase a mesma idade, portanto, joguei contra e com ela desde as categorias de base.


10) Você tem consciência de que a Hortência tornou-se famosa devido aos passes de bola que você fazia pra ela?

Tenho consciência da importância e do papel de cada jogador dentro de uma equipe. Assumir as suas responsabilidades e desempenhar bem as suas funções, em um esporte coletivo é essencial para o sucesso da equipe. Então, neste sentido, fazer bem o meu papel contribuiu para que a Hortência pudesse fazer bem o dela.



11) Qual o segredo para tornar-se um atleta de sucesso e ter bom desempenho?

Como em qualquer outra área, para se ter um bom desempenho é necessário muito trabalho, dedicação, seriedade, abdicação, respeito, planejamento. Para se tornar um atleta de sucesso é necessário tudo isso e mais uma combinação de outros fatores como o domínio de habilidades e competências específicas e das múltiplas inteligências (cinestésico-corporal, espacial, lógico-matemática, linguística, emocional, interpessoal e intrapessoal) além de estar preparado no momento em que a oportunidade aparece.


12) Em que momento você percebeu que seria interessante redirecionar sua carreira para a Educação Física e Treinamento esportivo?

Segui meus estudos normalmente enquanto jogava, isso exigia muita organização e força de vontade, pois muitas vezes viajava e ficava treinando e jogando com o clube ou com a Seleção Brasileira por algumas semanas e até meses. Como minha vida estava muito relacionada ao esporte, à prática de atividade física, resolvi conhecer mais sobre a preparação física a que éramos submetidas para podermos treinar e jogar em alto nível de rendimento. Meu foco era o treinamento esportivo, pois pretendia atuar posteriormente como técnica de basquete ou preparadora física.



13) Conte um pouco sobre sua experiência como coordenadora do Departamento de Esportes do Colégio Magister.

Estou no Colégio Magister há um ano e meio e atuar como coordenadora do Departamento de Esportes tem sido um desafio a cada dia. Estamos com uma proposta nova em 2009, com propósitos bem diferenciados para a Unidade Júnior (que é o desenvolvimento global do aluno, que envolve o desenvolvimento de competências relacionadas ao domínio psicomotor, mas também o sócio-afetivo e o cognitivo, através de ativiades diversificadas desde o 1º até o 5º ano) e para a Unidade Sabará (que além do desenvolvimento global do aluno tem como objetivo a formação de seleções, femininas e masculinas nas diversas modalidades que o colégio oferece como basquete, futsal, handebol e vôlei).


14) Qual a mensagem que você gostaria de deixar para os alunos do colégio e jovens de uma forma geral, sobre a importância de se praticar esportes?

O esporte teve um papel muito significativo na minha vida, me possibilitou conhecer e saber lidar com diversas situações relacionadas à sua prática, a enfrentar desafios, medos, inseguranças, a dominar ansiedade, tensão, alegria, raiva, tristeza, a reconhecer e aprender com os acertos e erros, vitórias e derrotas, a valorizar as conquistas pessoais e dos adversários, a valorizar e respeitar todas as pessoas que fizeram parte da minha trajetória, desde quem cuidava da água ou dos uniformes até o técnico ou chefe de delegação. Pude conhecer muitos lugares do Brasil e do mundo, mas principalmente pude conhecer pessoas, fazer amigos, que tenho até hoje.

O esporte pode ser uma grande oportunidade de aprendizado, de crescimento, de vivenciar emoções e sentimentos diversos em uma mesma partida, treino ou campeonato. O esporte faz parte da cultura de muitos países e está muito presente na nossa cultura, por isso, conhecê-lo, questioná-lo, valorizá-lo, praticá-lo ou reinventá-lo deve fazer parte da nossa formação cidadã.


15) O que você espera dos alunos que agora compõem a Seleção dos melhores jogadores do Magister?

Espero que possam vivenciar muitas situações que proporcionem aprendizado, crescimento, alegrias. Assim como espero muito empenho, dedicação, seriedade, ética, respeito nos treinamentos e jogos do Colégio Magister.

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