Colegio Magister

Entrevista com Rodrigo Medina

Por Luciene Almeida



1- Para iniciar a entrevista fale um pouco sobre sua formação acadêmica e no que consiste sua rotina como pesquisador do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância.


Obtive graduação em História, bacharelado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e licenciatura pela Faculdade de Educação da mesma universidade. Depois fui admitido no mestrado em História Econômica simultaneamente à minha aprovação para o doutorado direto no Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo, numa linha de pesquisa em Práticas Políticas e Relações Internacionais. Optei pelo doutorado direto, que devo concluir no próximo ano, defendendo tese sobre as políticas culturais dos Estados Unidos para a América Latina durante a Segunda Guerra Mundial, utilizando expedientes do Escritório para Assuntos Interamericanos, que funcionou em Washington durante a Segunda Guerra e que gerenciava essas políticas, bem como documentos referentes às Conferências Panamericanas e reuniões de Ministros de Relações Exteriores de repúblicas americanas no mesmo período. Com isso, acabo tendo como objeto central em minhas reflexões fenômenos como "Imperialismo cultural", hegemonia e poder unipolar. Durante o doutorado, pude estudar em outras instituições no exterior, passei um período no México realizando pesquisas em arquivos pela UNAM (Universidade Autônoma do México), estou viajando no próximo mês para a Argentina com a mesma finalidade e pude visitar o Oriente Médio, conhecendo importantes instituições de ensino superior onde apresentei os resultados parciais de minhas investigações.
No Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da Universidade de São Paulo comecei ainda quando era aluno de graduação, como estagiário. Depois de graduado tornei-me pesquisador e, tendo-me tornado docente de uma universidade, hoje ali atuo como professor-pesquisador na linha "Holocausto e Anti-Semitismo", coordenada pelo Prof.Dr. Samuel Feldberg, que entre outras atividades promove seminários e cursos para o público geral. Coordeno um módulo de pesquisa intitulado "Intolerância e Guerra no Mundo Contemporâneo", no âmbito de um acordo de cooperação pedagógico-técnico-científico firmado entre a Universidade Cruzeiro do Sul (onde leciono) e o LEI-USP, trabalhando com temas relacionados a genocídios, massacres e etnocídios em nossa história recente. Coordeno também, junto do Prof. Samuel, da Profa. Dra. Andrea Borelli e em parceria com órgãos do poder público, um grupo de pesquisa sobre Intolerância e Internet, que vem mapeando a atuação de grupos de intolerância na rede mundial de computadores. Também organizamos seminários, simpósios e congressos, nacionais e internacionais, que já contaram com a presença de renomados intelectuais e representantes de movimentos sociais, discutindo questões fulcrais à nossa sociedade. Também realizamos pesquisas para composição do acervo que constituirá nosso futuro Museu da Tolerância, que será construído na Universidade de São Paulo e que deve irradiar saberes de forma muito mais abrangente do que conseguimos fazer hoje.
Quanto às atividades de caráter mais cotidiano, coordenei o processo de digitalização do acervo Anita Novinsky (que ainda está em curso), riquíssimo em documentos sobre a atuação da Inquisição no Brasil colonial, com processos inteiros microfilmados, obtidos na Torre do Tombo, em Lisboa, e que registram a atuação dos tribunais de Coimbra, Lisboa e Évora, contra os judeus. Sou o editor responsável pelo portal de internet "Rumo à Tolerância" (www.rumoatolerancia.fflch.usp.br) que tem por finalidade divulgar ao grande público os resultados das investigações de nossos pesquisadores, além de disponibilizar uma série de materiais como vídeos, registros de áudio, imagens e textos sobre os mais variados aspectos dos fenômenos de intolerância e práticas de tolerância. Edito também um newsletter que comunica a existência desses conteúdos, bem como divulga os eventos que organizamos, de uma forma mais dinâmica e direta. Agora, estamos organizando o lançamento de uma revista acadêmica, da qual sou editor responsável, "InTolerância", que divulgará trabalhos acadêmicos nas mais diversas áreas das ciências humanas, sobre questões relacionadas à intolerância.



2 - De onde partiu seu interesse por este assunto (Intolerância)? O que o instigou a fazer um doutorado numa linha de pesquisa em Práticas Políticas e Relações Internacionais?


Partiu de profundas inquietações sobre os rumos da humanidade, sobre o uso do conhecimento para a construção de um mundo melhor e, consequentemente, do papel que o intelectual teria a cumprir nesse conturbado mundo, para operar urgentes transformações. Acredito aqui não em uma intelectualidade encastelada nas universidades de referência; mas no intelectual orgânico de que dizia Antonio Gramsci, profundamente encarnado nas questões sociais.
Meu doutorado revela uma dimensão maior desses problemas, nas relações interestatais, no fenômeno complexo da guerra, expressão máxima da intolerância do homem contra o homem, quando entendida não mais como "a continuação da política por outros meios", como defendia o general prussiano Karl von Klausewitz, mas como a própria política, como entendem frios analistas políticos e "policy makers" nos países centrais do sistema capitalista, não por coincidência, aqueles que recorrem ao recurso da força direta como instrumento de persuasão política na defesa dos interesses do capital.



3 – Tendo o cenário político do Brasil como referência, qual seria a definição correta para a expressão “Intolerância Política” em nossa sociedade?


Tivemos um grave período de intolerância política durante o regime ditatorial brasileiro. Contudo, não podemos pensar, definitivamente, que com a "abertura política" (que nos deixou o gosto amargo da anistia aos torturadores) tenhamos alcançado uma democracia plena. Nossa "abertura" foi acordada nas mais altas esferas do poder, onde foram negociadas permanências históricas de privilégios para os mesmos privilegiados de sempre. Nossa história, como nos disse Boris Fausto, é uma história de permanências, não de rupturas; e quando as coisas mudam é para que tudo continue como sempre esteve. Para deter a força das massas, reformas são operadas para que as massas não obliterem as estruturas vigentes, o status quo.
Experienciamos dinâmicas mais profundas de intolerância, para além da política, e que atingem a base do nosso conceito de cidadania, desvelando que ela está distante de ser plena. Na letra da lei, somos portadores de direitos, primordialmente à dignidade; enquanto na prática somos violentados cotidianamente pela existência da fome, da violência, da exclusão e dos valores burgueses que entendem a miséria como uma simples escolha de caráter moral, não como desdobramento perverso de uma lógica sistêmica, uma própria matemática da bestialização dos despossuídos.
A incongruência é que somos portadores de uma das mais progressistas legislações do mundo, para a manutenção das mais arcaicas e brutais práticas de violência e segregação.
Superamos a intolerância política com conquistas fundamentais; mas resolvemos a intolerância dos políticos? A apropriação privada do público, a corrupção institucionalizada, a impunidade descarada, a reeleição de facínoras, o seu comprometimento com o grande capital (principalmente as grandes empresas que financiam campanhas) ao passo de sua clara despreocupação com os reais problemas da sociedade, seu relacionamento com o crime organizado, suas próprias condutas criminosas, dentre tantas outras mazelas, revelam que não!



4 – Em sua palestra sobre Intolerância, proferida no dia 21/10, você enfatizou que a diversidade pauta o convívio social e distingue os indivíduos por suas singularidades. Direcionando esse discurso para a questão da Intolerância Étnica, de que maneira, esse tipo de rejeição afeta as relações humanas, especificamente no Brasil?


O que nos constitui essencialmente são as diferenças. O imperativo, para a construção de uma sociedade tolerante é, portanto, a aceitação do outro, do diverso. É impensável que uma sociedade tão plural, como a brasileira, conviva com graves problemas de intolerância exatamente ao diverso! Grupos religiosos que profanam imagens e símbolos rituais de outras religiões, o racismo velado ou desvelado em programas que se dizem “humorísticos” (seria preciso, aqui, redefinir o conceito de humor para a criação de novas categorias, como a de "humor racista"), condutas de violência contra homossexuais (dos espancamentos ao assassínio), o trato do estrangeiro como inferior (o que vale também para aquele que é entendido como "menos brasileiro", no caso dos nordestinos em São Paulo), e uma série de outros exemplos, revelam que convivemos mal com o diverso. Estamos na vigência de uma cultura de ódio expresso, vazado nos mais variados âmbitos da vida social, o que nos impõe uma imensa e urgente tarefa a fazer: construir uma contracultura da tolerância, para reafirmar o Homem, os próprios valores humanísticos, no seio de uma sociedade que desumaniza, valorando o "ser" pelo "ter", como nos disse Eric Fromm.



5 – Nos casos de guerras ideológicas, religiosas e étnicas, a intolerância chega a ultrapassar os limites da irracionalidade com relação a indivíduos ou grupos específicos? Se sim, cite alguns exemplos.


Apesar de a guerra ser extremamente racionalizada, de os morticínios serem perpetrados com o recurso fundamental da técnica e de a intolerância ter se desenvolvido, como nos disse Humberto Eco, de tipo selvagem para categórico, não posso deixar de verificar que os argumentos sobre os quais tentam se ancorar condutas de intolerância em alguma base de cientificidade, o fazem construindo ou se reapropriando de pseudociências, criadas em essência para legitimar seculares preconceitos ou ideias de superioridade civilizacional.
Infelizmente os exemplos são vários!
Os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial ao perpetrarem o abominável: o Holocausto; os conflitos étnico-nacionalistas na África; as sistemáticas tentativas de "limpeza étnica" nos Bálcãs; e o barril de pólvora que se tornou o Oriente Médio, dentre tantos outros.
Temos graves questões humanitárias em jogo, que não devem ser preteridas em relação às ideologias, convicções religiosas ou pertenças étnicas. O Homem universal e seus direitos inalienáveis devem ser o cerne das reflexões sobre a política, não apenas um dos elementos componentes de um sistema mecânico-funcionalista.



6 – É possível estabelecer uma cultura de paz em favor da Tolerância em sociedades fragmentadas por diferentes grupos sociais, como é o caso, por exemplo, dos países que constituem a América Latina?


Como é o caso que constitui as relações de produção em termos planetários! O modelo de desenvolvimento, ou o modelo de progresso que adotou a civilização ocidental, entende o progresso como puramente técnico, como o meio capaz de promover o progresso humano. Em verdade, a própria ideia de progresso deve ser repensada para incorporar uma gama muito mais variada de relações, para além dos processos produtivos. É preciso, então, pensar o progresso em termos totalizantes e meios para sua consecução, que abarque o Homem e suas aspirações, não meras modernizações abstratas: é preciso repensar o Homem, para repensar a própria ideia de civilização, tendo como horizonte o mundo que queremos.
Obviamente, pensar a tolerância em sociedades duais, em formações sociais eivadas de contradições e com gravíssimos problemas de subdesenvolvimento e dependência, é uma tarefa muito mais difícil, mas que faz muito mais sentido! Temos, na América Latina, uma das mais violentas histórias de conflitos civilizacionais, desde a colonização, a hecatombe que vitimou civilizações antiquíssimas, a escravidão, as guerras de independência (excluindo-se daí a experiência lusófona), o ciclo civilização & barbárie, o caudilhismo, o populismo, as ditaduras, as revoluções sociais, a organização dos setores subalternos, oprimidos, como forças políticas... A América Latina é complexa e apaixonante, e pode ter ainda muito que ensinar aos povos da Terra em termos de multiculturalismo, hibridismo, aceitação das diferenças e consecutivas superações operadas pelos de baixo que tantas vezes "assaltaram o céu" (termo utilizado por Marx para se referir à Comuna de Paris).



7 – Em um país como o Brasil onde a política é ignorada ou banalizada pela maioria da população, em parte pela descrença em seus líderes políticos, em parte pelo total desinteresse da massa em não acompanhar esse movimento; pode-se afirmar que, este, é um tipo de comportamento identificado como Intolerância Política justificada?


Prefiro pensar noutra direção. A quem interessa o desinteresse político de muitos? A quem interessa um eleitorado mediano desinformado e que vota não a partir da análise de projetos para a melhoria das suas condições de vida, mas numa mera embalagem que reveste políticos hipócritas dando-lhes "slogans", frases de efeito e condutas malabarísticas que invariavelmente atingem o ridículo? Infelizmente as respostas são óbvias, tão óbvias que não há mais reflexões sobre elas, foram diluídas no cotidiano e entendidas como parte constitutiva de nossa normalidade, ou pior, de nossa cultura política. O político corrupto seria então apenas uma expressão institucionalizada do brasileiro que dá um jeito em tudo! Nos convencem de que isso é a nossa própria identidade e a valoram positivamente! Aí a honestidade passa a ser defeito, literalmente uma conduta desviada da norma!
Prefiro tipificar essa dinâmica como instrumento de dominação numa antiga luta em curso, entre forças sociais antagônicas.



8 – Como pesquisador dessa área você consegue precisar qual período da história a intolerância política assumiu concretamente a forma de lutas ideológicas e, de que forma, foi disseminada em outros países?


Teria que tratar então da própria construção do Estado desde o Crescente Fértil, na forma de Estados Teocráticos, desde a História Antiga! Entendo intolerância política como o recurso a meios excessivamente coercitivos para garantia, pela força ou ameaça do uso da força, de apenas uma interpretação de mundo, o que leva à ideia de civilidade ou cidadania como a adoção de comportamentos de obediência plena e irreflexiva, o que me arrepia dos pés à cabeça!
Precisamos pensar o indivíduo pleno exatamente como aquele que toma as rédeas do seu destino em suas mãos, o agente de sua própria história, não aquele que anula a si, as suas particularidades, aquilo que o constitui como único, em nome de uma ideologia que uniformize corações e mentes e que lhe torne estupidamente obediente, como gado. Vale muito aqui a ideia de "globalitarismo" cunhada pelo brilhante Milton Santos, que entendia o consumo de massa como o novo "fundamentalismo" dos novos tempos! Não seriam ideologias políticas os controladores desse inadmirável mundo novo: o que nos uniformiza, padroniza e nos torna subservientes seriam então os valores partilhados por essa sociedade materialista que nos submete à ditadura da aparência, que entende indivíduos, os valora e lhes atribui a própria existência social em relação ao repertório de bens tridimensionais que conseguiram concentrar no tempo efêmero de sua existência. A ideologia vigente hoje é a do consumo acrítico, sem sentido e nocivo ao próprio planeta.



9 – Por que a intolerância geralmente está vinculada à política e religião?


Porque desvelam visões distintas de mundo e suas interpretações, ou melhor, são operacionalizadas nesse sentido.
Sobre isso vou falar, inusitadamente, mais de religião do que de política! Religião, como instituição, não deve ser confundida com religiosidade. Esta todos nós possuímos, ainda que não tenhamos religião! Constitui nossa dimensão imaterial de existência, onde residem nossas necessidades subjetivas, como: amar, ser amado, perseguir uma idéia de justiça, de verdade... O sagrado conforme entende a Teologia e a Antropologia Cultural constitui aí o estado de transcendência em que, por meio do ritual (dado em livros sagrados ou outras formas de indicações expressas em praticamente todas as religiões), o indivíduo transcende a sua dimensão meramente material e se conecta a algo maior, que lhe alimenta a alma e lhe devolve à matéria transformado, em condição de equilíbrio. Nesses termos, a religião poderia ser instrumento disso! Eu disse poderia, porque não se leva a equilíbrio alguém fomentando o ódio, a intolerância ou reafirmando exatamente os valores da matéria em detrimento dos valores do espírito! Não se transcende a matéria quando o valor ritual é o do dinheiro e o objetivo deixa de ser a completude dos desejos da alma para a garantia de satisfação plena dos desejos da matéria. Não há equilíbrio nisso! Vivemos em desequilíbrio, portanto não estamos em paz nem conosco! Como aceitar o outro, se não aceitamos nem a nós mesmos, quando incorporamos valores excessivamente materiais e privilegiamos apenas o "ter"? Mais uma tarefa: transformar a nós mesmos! É um bom começo para que estejamos prontos para o outro!



10 – Além de historiador e sociólogo você também faz parte de uma banda de metal tradicional chamada Prodigal Sinner. Como músico, obviamente, você conhece bandas alternativas que fazem críticas sociais e tratam com seriedade as questões voltadas à intolerância. Cite alguns movimentos existentes no Brasil ou em outros países.


A música faz parte da minha vida, da minha identidade, daquilo que me constitui como indivíduo! Nela, crio e recrio meu mundo, sonho, amo, transcendo de diversas formas!
Para mim, além de ouvir música, sem preconceitos e aberto ao novo, é fundamental fazer música! É uma das formas de dizer o que penso e o que quero, e também de render tributo às bandas que admiro!
Se Nietzsche disse que só acreditaria em um deus que soubesse dançar, eu digo que só acredito em um deus que saiba cantar! Mas qualquer espaço de construção de opiniões pode servir tanto a um quanto a outro propósito!
Infelizmente, o heavy metal, estilo que tanto amo, vem sendo ambiente mais de condutas de intolerância do que de tolerância. Condutas autointituladas "verdadeiras", como o "thrue metal", chegam a fomentar a violência entre amantes do estilo. Para, além disso, o heavy metal não vem sendo ambiente para a crítica da realidade, muitas vezes é o espaço de criação de universos fantasiosos, que pouco ou nada dizem sobre nossos problemas. Mas isso não é em essência ruim, do contrário, boa parte da literatura, verdadeiros tesouros da humanidade, estaria condenada por isso. Muito se diz sobre o mundo que queremos nos universos fantasiosos que criamos.
Contudo, há bandas como Iron Maiden, que têm como característica também a proposição de reflexões sobre problemas concretos como, por exemplo, a guerra, no caso da banda liderada por Steve Harris, de forma brilhantemente poética, entre poucas outras.
No Brasil, o movimento punk, na década de 1980, fez muito mais em termos políticos do que outros estilos; contudo, hoje experimenta releituras que também apontam, em algumas vertentes, também para práticas de ódio, o que só se pode lamentar.



11 – A história mundial foi marcada por períodos traumáticos de intolerância, como a inquisição, o holocausto ou mesmo o próprio genocídio no Brasil em 1617. Atualmente, quais os exemplos mais latentes de intolerância no mundo?


As constantes epidemias de fome em países periféricos do sistema capitalista, o reinventado imperialismo e o velho discurso civilizador dos países ricos, a ascensão de uma direita ultra-reacionária como força política na Europa, o conflito israeli-palestino, a retórica negacionista iraniana, a ascensão do terrorismo como ameaça global, os novos/velhos terrorismos de Estado, os conflitos étnico-nacionalistas na África, o golpe militar em Honduras, qualquer golpe militar em qualquer parte do planeta, o bonapartismo chavista na Venezuela, a hiper-exploração de trabalhadores pobres em tantos lugares do mundo, o trabalho infantil e a pedofilia, a pena de morte nos Estados Unidos e tantos outros países, o estupro legalizado dentro do matrimônio no Afeganistão, os estupros perpetrados pelas forças de ocupação e pela polícia do Iraque, a iminente invasão do Paquistão pelos EUA, o fundamentalismo religioso em qualquer religião, a idéia de que matar pode ter um propósito divino... Entre tantos outros exemplos possíveis.



12- E para encerrar, você poderia deixar uma pequena contribuição aos alunos do Colégio Magister? Cite algumas referências de livros, artigos e filmes indispensáveis para aqueles que desejam interar-se mais sobre este assunto.


Assistam "Viver", "Dersu Uzala", "Sonhos" e "Rapsódia em Agosto" do maior gênio do cinema de todos os tempos (na minha humilde opinião), o diretor Akira Kurosawa, para conhecerem um cinema que não é pretensioso em "retratar a realidade", nele a realidade é recriada com liberdade artística, é suporte para novas experimentações estéticas e propõe profundas reflexões sobre a condição humana e seu avassalador poder, para destruir e para reconstruir o Homem. Não deixem de ver "Dr. Fantástico", "2001", "Laranja Mecânica" e "O iluminado" de outro gênio do cinema, o diretor Stanley Kubrick, que influenciou toda a nova geração de diretores de cinema dentro e fora dos EUA. Assistam a "A batalha de Argel", de Gillo Pontecorvo para tomarem contato com o poder destruidor do colonialismo. Se emocionem com "Pappilon", de Franklin J. Schaffner, para refletirem sobre tudo aquilo que priva o Homem do que mais essencial lhe constitui: a liberdade. Riam muito, mas muito, com o grupo Monty Python em: "Em busca do cálice sagrado", "A vida de Brian" e "O sentido da vida". Vejam "Blade Runner", de Ridley Scott, para se questionarem sobre o papel do humano numa sociedade futuramente cibernética. Chorem, mas chorem muito com o destruidor "O homem elefante", de David Lynch, que desvela o pior do humano ao bestializar o outro, e o melhor do humano ao estender a mão e humanizar aquele que teve furtada de si sua própria humanidade. Assistam "Arquitetura da destruição", de Peter Cohen, para conhecerem a dimensão estética do nazismo que matou 6 milhões de judeus também por um padrão de belo. Assistam "Fahrenheit 11 de setembro" e "Tiros em Columbine" de Michael Moore, para pensar os rumos de sociedades quer militarizaram setores de suas economias e precisam matar em massa e periodicamente para manter fluxos produtivos constantes.
Leiam Karl Marx, que nunca esteve tão atual para os novos tempos, especificamente "Trabalho assalariado e capital", para entender antigas lógicas sistêmicas de produção das desigualdades. Leiam Montaigne, "Dos Canibais"; e La Boétie e o "Discurso da servidão voluntária"; para descobrirem pérolas do pensamento humanista que precisa ser urgentemente reafirmado. Leiam Joisten Gaader, "O mundo de Sofia", um curso de filosofia para "não iniciados".
Se quiserem se arriscar pelo inglês, leiam o mil vezes gênio Arthur Miller, "Incident at Vichy: a play", "After the fall" e "The crucible", para tomar contato com reflexões profundas não só sobre o Holocausto, mas sobre a política e a guerra que, juntas, podem constituir a ruína da humanidade. Leiam José Martí, "Nuestra America", para experimentarem a poesia cubana, libertária e anti-imperialista, a ferver o sangue de seus leitores. Leiam o gênio, gênio, um milhão de outras vezes gênio Walter Benjamin, "Obras escolhidas".
Entendam porque a idéia de globalização mascara dinâmicas hegemônicas e de poder global com o livro de Fredric Jameson, "A cultura do dinheiro".
Entendam o mundo contemporâneo com dois autores fundamentais: Giovanni Arrighi, com "O longo século XX"; e Eric Hobsbawn, com a tetralogia "Era dos Impérios", "Era das revoluções", "Era do capital", "Era dos extremos". Leiam T. More, e sua "Utopia", livro que lhe custou a vida. E, por tudo o que há nessa vida, ao menos uma vez, leia o maior poeta socialista de todos os tempos: Bertold Brecht, literalmente qualquer poema que ele tenha escrito!



Veja artigos, entrevistas e vídeos do pesquisador disponíveis na internet

© 2012   Criado por Colégio Magister.   Ativado por .

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço