Colegio Magister

O que o ranking do Enem não nos conta

29/04/2009 - Folha de S. Paulo (SP)
Antônio Gois
da sucursal do rio

Imagine dois competidores disputando uma maratona. O primeiro deles, forte e saudável, usa um tênis sofisticado. O outro, mais fraco, tem um calçado normal. Ninguém duvida de que o primeiro vencerá a corrida. Mas você associaria o resultado ao tênis que ele usou? Em certa medida, é isso que fazemos ao comparar acriticamente escolas no ranking do Enem.

Desde 1966, quando o sociólogo James Coleman publicou relatório pioneiro sobre fatores associados ao desempenho de alunos nos EUA, especialistas em avaliação educacional vêm confirmando que é o nível socioeconômico dos estudantes o que mais explica o resultado. É por isso que colégios que atendem somente filhos de pais de alta renda e escolaridade largam na frente no Enem -não necessariamente por suas práticas pedagógicas, mas, principalmente, pelo perfil de aluno que atendem.


Não é mera coincidência, portanto, que as melhores escolas públicas sejam federais ou técnicas, pois elas também fazem, em sua maioria, um processo de seleção de estudantes.

Mesmo na comparação entre colégios de elite, é preciso ter cautela. Uma escola que dá bolsas para alunos pobres, que não discrimina deficientes e não expulsa estudantes que repetiram de ano perderá pontos -não por seus defeitos, mas por seus méritos. Isso não invalida a utilidade do ranking do Enem -ferramenta valiosa para ajud ar os pais a avaliar a escola dos seus filhos. Só não deve ser a única.

Constatar que o resultado é explicado principalmente pelo perfil do aluno não significa que a escola não faça diferença. Mas é preciso ter em mente que o melhor colégio não é necessariamente o que está no topo do ranking, mas, sim, aquele que consegue fazer mais do que se esperava por seus alunos.

E isso, infelizmente, o ranking do Enem não nos conta.

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